A influência negativa das Redes Sociais nas eleições do Brasil

As campanhas das eleições no Brasil esta vez estão acontecendo muito através das redes sociais. Este novo fenômeno é difícil de rastrear por causa da forma como as ferramentas de redes sociais e mensagens são elaboradas para assegurar a segurança e privacidade dos utilizadores.
Empresas que oferecem serviços de gestão de publicação de conteúdo desenvolveram e disponibilizaram ferramentas que permitem o agendamento de mensagens para horários específicos e números e pessoas específicos. Concebidas e idealizadas para comunicar e distribuir informações sobre produtos e serviços de empresas, são ferramentas altamente evoluídas e eficientes, utilizadas por empresas de marketing e publicidade pelo mundo todo.

O fato das mensagens serem textos, imagens pequenas, e vídeos curtos, permite o envio de uma grande quantidade de mensagens sem onerar o custo e nem a banda de trafico de dados dos receptadores e público alvo das campanhas.

Ferramentas que enviam mensagens operam através de uma plataforma que permite gerenciar envio de mensagens para o Facebook, Twitter e Whatsapp através de uma única ferramenta. Geram dados de visualização, respostas e permitem analise de sucesso e receptividade das informações distribuídas. Além disso, podem verificar inclusive se as pessoas estão acessando determinado conteúdo, e nestes casos, enviar mensagens específicas, assim como identificar pessoas com interesses específicos e mandar conteúdo para elas também.
Todas estas ferramentas e métodos de atividades são amplamente conhecidos por pessoas que trabalham com marketing digital, porém estão sendo amplamente utilizadas agora para distribuir informações que influenciam nas opiniões das pessoas sobre seus posicionamentos políticos.

O choque do acesso a plataformas das redes sociais sem ter a cultura da Internet

Até poucos anos atrás, nem todas as pessoas no Brasil se interessava pela internet, nem participavam dela de forma de fato participativa.
Pessoas viviam apenas em seus círculos de conforto, sem acessar informações do mundo, consumindo apenas informações através de veículos de mídia tradicional como jornais, televisão e rádio.
Com a popularização de aparelhos mobile smartphones, estas pessoas passaram a ter acesso ás redes sociais que em muitos casos podem até já vir instaladas nos aparelhos.
Com a facilidade de entrar e se conectar com outras pessoas através das redes sociais ocorreu um certo choque de percepção de mundo para muitas pessoas. Gente que vivia por exemplo apenas em sua realidade cotidiana religiosa, passou a ter acesso a informações de outras pessoas que não são religiosas. Pessoas que viviam com convicções baseadas em opiniões não fundamentadas em dados e informações factuais passaram a ser confrontadas com dados científicos e estudos que eram opostos as suas convicções.
Pessoas com convicções racistas, homofóbicas, religiosas, que antes viviam apenas em seus círculos pequenos de convívio e acesso restrito e limitado de conhecimento evidentemente tiveram um choque de realidade bastante cruel.
Sem entenderem direito o que é a Internet, puderam de qualquer maneira expressarem suas opiniões, por mais infundadas em factualidade que fossem. Os mecanismos evidentemente agiram como sempre, aproximando e dando ferramentas de comunicação para estas pessoas propiciando que elas acabassem se conectando justamente por interesses e gostos similares.
Isso é o que chamamos de bolha social digital, onde pessoas no meio digital ficam rodeadas de outras pessoas que pensam de forma similar, portanto uma incentivando e fortalecendo as convicções da outra, mesmo não havendo base factual para justificar aquelas convicções. É comparável a uma seita, onde as pessoas participantes, apesar de poderem investigar o mundo, preferem se manter dentro de uma doutrina que as faz ter conforto ou importância no círculo social.
Havendo outras pessoas para incentivarem o comportamento, seja através de comentários, ou curtidas, ou compartilhamentos, as informações, por mais infundadas e incorretas que estiverem, irão trazer satisfação pessoal para as pessoas que compartilham e distribuem o conteúdo em seus círculos e gerarem reações.
Este grupo, não tem a cultura da Internet, portanto acreditam muito que opiniões, mesmo que factualmente incorretas, tem valor pelo fato de ter volume de interação e reafirmação da rede de perfis conectados.
Alguém pode postar alguma ideia absurda, e irá encontrar pessoas que se demonstrem favoráveis a premissa sem haver nenhuma contestação ou verificação factual.

A Internet é e sempre foi um local de disponibilização de informações, onde pessoas trocam conhecimento, distribuem informações e tem acesso a informações de todos os tipos. Até pouco tempo atrás, as informações eram principalmente avaliadas por sua veracidade. Qualquer premissa era valiosa principalmente se fosse baseada em fatos e dados comprovados.

As Redes Sociais surgiram com o intuito de ampliar a possibilidade das pessoas se conectarem através de interesses em comum, permitindo compartilhando de conteúdo para pessoas conectadas.
De certa forma, se tornou uma grande cadeia de mailing lists, mas com ferramentas inteligentes que permitem ampliar a importância das informações compartilhadas a partir do volume de pessoas e perfis que interagem com aquelas determinadas informações.
Em cima disso, ferramentas de marketing e estatísticas que rastreiam todos estes dados e interações foram disponibilizadas permitindo que fossem elaboradas estratégias de comunicação e engenharia social e que pudessem ser amplamente aplicadas nos conteúdos disseminados, tornando assim as ferramentas mais eficientes em trazer para as pessoas as informações que são do gosto delas. Pessoas que gostam de sapatos, acessam mais conteúdo sobre sapatos, e assim sucessivamente.
Acontece que além de produtos as pessoas também passaram a ter acesso a informações contrárias as suas convicções.

Pessoas que nunca estiveram em um museu, passaram a dar opiniões sobre peças e exposições em museus. Pessoas que nunca tiveram presentes e peças de teatro, passaram a criticar peças de teatro.
Estas criticas porém, feitas a partir de suas convicções de mundo pequeno e fechado.
Em momento algum estas pessoas tiveram qualquer instrução de como verificar veracidade de fatos, e nem também não tiveram oportunidade de aprenderem sobre talvez coisas importantes, como o conceito de que estamos todos juntos no mesmo planeta.
Sendo assim, vemos candidatos, empresários, e outras pessoas que antigamente não se manifestavam de forma ampla, agora achando através destas plataformas uma maneira de disseminarem suas opiniões, e por causa da forma como as ferramentas são estruturadas, se conectam com milhares de pessoas com pensamentos similares.
Em momento algum estas pessoas se questionam ou buscam questionamento para suas convicções, nem aplicam métodos científicos ou de verificação das suas convicções.

Internet madura, usuários novatos

O maior problema é que estas pessoas que não tem a cultura de usar a Internet para verificação de fatos e dados, entrou na internet com suas opiniões em um momento em que as ferramentas de marketing e comunicação digital estão amplamente evoluídas.
As ferramentas como o Facebook, Twitter e Whatsapp são ferramentas altamente evoluídas. São serviços amplamente funcionais, que justamente foram elaborados para serem de fácil utilização.
O que torna estas pessoas muito mais suscetíveis a serem enganadas por conteúdo falso.

Ao se dar conta disso evidentemente muitas pegadinhas já foram realizadas na internet, além de experimentos sociais dos mais variados, porém o que vemos ultimamente no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa é que existe também movimentos religiosos e movimentos políticos que se aproveitam desta massa de pessoas novas ao mundo digital para ampliarem sua agenda política. Se valendo da inabilidade e falta de cultura digital de buscar fontes e pesquisar dados, conseguem largar uma enxurrada de informações deixando estas pessoas inundadas de conteúdo que em grande parte é falso. Apelas o volume, já é um empecilho para conseguir verificar tantas afirmações, e como as pessoas são muitas vezes receptadoras destes conteúdo por amigos e familiares, acabam confiando sem fazer as devidas verificações.

No Brasil campanhas como a do PSL á presidência da república demonstraram amplamente como notícias que não são factuais podem se tornarem amplamente conhecidas pela população sem haver qualquer contestação e verificação factual.
Somente no Twitter foram identificados 400 mil robôs que espalhavam continuamente informações duvidosas ou comprovadamente falsas.
O Facebook também identificou e tirou do ar páginas e perfis que atuavam no mesmo contexto e o Whatsapp bloqueou centenas de milhares de perfis que estavam sendo utilizados da mesma forma.

O saldo negativo destas combinações ainda não se pode mensurar, mas é evidente que muitas pessoas foram enganadas e não sabem disso talvez até hoje.

Para piorar tudo, os governos não estão preparados para lidar com isso, e embora iniciativas louváveis tenham sido feitas por diversas entidades, é virtualmente impossível combater de forma eficiente a disseminação de informações falsas.